O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos (Treasury) disparou na quarta-feira (23), atingindo o nível mais alto em quase duas décadas.
O movimento foi impulsionado por novos dados que apontaram forte atividade econômica nos Estados Unidos e crescentes preocupações com a inflação.
O rendimento do Treasury de 10 anos subiu 15 pontos-base, chegando a 5,11% — o maior patamar desde 2007 e o mais elevado do ano. Esse indicador é fundamental para a economia, pois influencia diretamente o custo de hipotecas, financiamentos de veículos e empréstimos empresariais.
Os rendimentos sobem quando os preços dos títulos caem, e o movimento reflete as apostas dos investidores sobre o caminho da inflação e da taxa de juros do Fed (Federal Reserve).
O salto nos rendimentos na manhã de quarta-feira foi desencadeado por novos dados econômicos. A atividade empresarial nos Estados Unidos em setembro acelerou ao ritmo mais rápido desde julho de 2021, de acordo com dados da S&P Global.
Ao mesmo tempo, os custos de insumos subiram em razão da alta nos preços de energia.
Esse cenário elevou as apostas de que o Fed pode continuar aumentando os juros para conter a inflação, com espaço para fazê-lo diante de uma economia robusta.
As probabilidades de um aumento de juros pelo Fed em outubro subiram para 66%, ante 55% no dia anterior, segundo a ferramenta CME FedWatch.
O Treasury de 10 anos havia superado os 5% no início do mês, recuado nos dias seguintes e voltado a disparar nesta quarta-feira, chegando a 5,14% durante as negociações antes de fechar em 5,11%.
Os rendimentos subiram ao longo de toda a curva: o Treasury de 30 anos avançou 11 pontos-base, para 5,4% — maior nível intradia desde 2007 e maior fechamento desde 2004. Já o Treasury de dois anos saltou cerca de 16 pontos-base, para 4,9%, seu maior patamar desde 2024.
O Treasury de cinco anos também superou os 5% pela primeira vez desde 2007, após um leilão regular realizado na quarta-feira.
“No geral, foi uma leitura muito mais forte do que o esperado para a atividade empresarial nos EUA, o que implica ampla margem para que tanto as taxas de política monetária quanto os rendimentos do Treasury sigam subindo no curto prazo”, escreveu Vail Hartman, estrategista de taxas dos EUA no BMO Capital Markets.
Alta do petróleo amplifica o movimento
Os rendimentos já vinham subindo na manhã de quarta-feira com a alta dos preços do petróleo no mercado global. O contrato de Brent para entrega imediata avançou 3,86%, fechando a US$ 103,08 por barril, após cinco sessões consecutivas de queda.
Investidores monitoram os desdobramentos no Oriente Médio e tentam avaliar se as interrupções no fluxo de petróleo serão temporárias ou persistentes.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, também discursou na Assembleia Geral da ONU nesta quarta-feira, afirmando que o país não se curvará aos Estados Unidos em meio às tensões sobre o Estreito de Ormuz.
Pezeshkian disse que Teerã não permitirá que Washington use o canal estratégico “para impor suas agressões sobre nós”.
“Não podemos deixar que alguns tenham acesso livre e obtenham seus interesses de uma via marítima enquanto, ao mesmo tempo, usam essa via para impor suas agressões sobre nós, para impor insegurança sobre nós, para nos proibir o acesso às nossas próprias vias marítimas”, afirmou Pezeshkian na cúpula em Nova York.
“Hoje foi uma tempestade perfeita alimentando a disparada nos rendimentos dos títulos ao longo de toda a curva”, disse Chip Hughey, diretor-gerente de renda fixa da Truist Advisory Services.
A alta nos preços do petróleo e nos rendimentos dos títulos derrubou as bolsas: o S&P 500 recuou 0,75% e o Nasdaq Composite caiu 1,1%.
O dilema do Tesouro americano
No início do ano, alguns bancos de Wall Street projetavam que o Fed poderia cortar os juros em 2025. Porém, o choque energético provocado pela guerra com o Irã e os sinais de resiliência da economia mudaram completamente o rumo da política monetária.
O Fed elevou os juros neste mês pela primeira vez desde 2023.
No começo do ano, o Treasury de 10 anos era negociado a 4,15%. Agora, o rendimento está em 5,11%.
“Isso é o mercado nos dizendo que entramos em um genuíno ciclo de reaperto”, disse Tony Miano, analista de estratégia de investimentos globais do Wells Fargo Investment Institute.
A alta nos rendimentos aperta as condições financeiras e encarece o crédito, o que pode agravar as preocupações com o custo de vida em uma economia já marcada pelo pessimismo dos consumidores.
O Departamento do Tesouro dos EUA iniciou uma operação ampliada de recompra de títulos que pode ajudar a conter a alta dos rendimentos.
Nesta quarta-feira, o Tesouro anunciou que realizará uma nova recompra de até US$ 6 bilhões na quinta-feira — a segunda de uma série de recompras ampliadas que permitem até o triplo do tamanho de uma operação padrão.
Em 19 de agosto, o Tesouro havia anunciado que pelo menos dobraria o volume de recompras de títulos de longo prazo entre setembro e novembro. A operação padrão é de US$ 2 bilhões, o que significa que as recompras ampliadas seriam de pelo menos US$ 4 bilhões.
A primeira das recompras ampliadas ocorreu em 10 de setembro, quando o Tesouro recomprou US$ 5,2 bilhões em títulos — ligeiramente abaixo do limite de US$ 6 bilhões, mas ainda mais que o dobro do tamanho padrão.
As recompras do Tesouro são uma das ferramentas do secretário Scott Bessent para tentar desacelerar a alta dos rendimentos.
No entanto, analistas afirmam que o volume das recompras não é suficiente para ter impacto relevante em um mercado de Treasury que supera US$ 30 trilhões e não alterará as forças fundamentais que levam os rendimentos a subir.
“A disparada nos preços de energia e a robustez da atividade econômica continuam superando o impacto do programa de recompras”, disse Hughey, da Truist.
FonteCNN Brasil